SAÚDE MENTAL


Imagine sair de uma consulta médica com a prescrição de, assim que possível, visitar um museu, ir ao teatro, ao cinema ou a um show —tudo isso sendo seriamente considerado como uma ferramenta de tratamento.

Parece insólito, é verdade, mas a prática começa a ganhar força no Brasil e no mundo e tem até nome. 

São as “prescrições sociais” que miram na necessidade de conexão com o outro e, portanto, na capacidade da arte (e outras atividades coletivas) de aproximar pessoas, contar histórias, partilhar contextos, entre outros aspectos.

Projetos realizados na Bélgica e na Suíça, por exemplo, permitiam que médicos dessem indicações de visitas a museus para quem passa por desafios de ordem psicológica, da depressão ao burnout, como uma forma de promover o bem-estar.

No Brasil, a conversa sobre atividades artísticas também ocupa as consultas e fazem parte da anamnese (a conversa entre médico e paciente que coleta informações para diagnóstico e tratamento) de diversos psiquiatras.

—A prescrição de atividades culturais entra como uma ferramenta terapêutica adjuvante, ela não substitui medicação. —explica Priscila Rocco, psiquiatra e psicoterapeuta do Hospital Sírio-Libanês.

—Ela pode colaborar caso, a gente não precisa de um diagnóstico psiquiátrico para oferecer. 

O nosso foco pode ser aliviar o estresse, por exemplo. Priscilla explica que um dos ganhos desse tipo de atividade é, basicamente, a manifestação “não verbal” de alguns dos sentimentos.

Ou seja, vai além de só incentivar o paciente a sair de casa e dar uma volta, tem a ver com o contato com novas narrativas e interpretações do mundo, da sociedade.

 REVOLUÇÃO A CAMINHO

Embora ainda exista uma resistência em incluir atividades artísticas como verdadeiras promotoras de saúde, a professora acredita que viveremos uma verdadeira “revolução”, na qual esse tipo de participação se tornará cada vez mais relevante para a saúde individual e coletiva.

— Nos anos 1950, os exercícios físicos eram hobbies. 

Nos anos 1980, porém, as pessoas começaram a fazer caminhadas, aeróbicos, tinha uma revolução em andamento, mas ainda havia dúvidas para determinar o benefício do exercício do corpo.

Essa evidência aumentou com a chegada de novos estudos.

Hoje, por outro lado, a pergunta se o paciente faz atividade física está, basicamente, em todas as consultas médicas.

Em relação às artes e a saúde, estamos neste momento no mesmo patamar que os exercícios físicos estavam em 1980.

Temos evidências fortes, mas talvez não fortes o suficiente ainda, e a compreensão não foi socializada. Mas estão próximas de ser.




O GLOBO
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