Chefes com medo de sombra sufocam talentos.
Vivemos uma crise
implacável e crescente na formação de novos líderes.
Um estudo da
consultoria norte-americana DDI mostrou que apenas 18% das organizações afirmam
ter sucessores prontos para posições críticas.
Uma pesquisa
conduzida pelo Gartner mostrou que 55% dos líderes não acreditam que
conseguirão atingir suas metas se incentivarem seus colaboradores a crescer
para outras áreas na organização.
Os dados também
demostraram que 82% dos funcionários não se sentem encorajados pelo seu gestor
a progredir na empresa. Ao contrário, têm medo do seu gestor.
Quando desenvolver
talentos passa a ser percebido como risco pessoal e a formação de sucessores se
torna exceção, o problema deixa de ser individual e revela um padrão sistêmico.
Um levantamento da
consultoria Cia de Talentos indicou que 48% dos jovens não desejam assumir
cargos de gestão, sinal de uma mudança relevante na relação das novas gerações
com o poder e a responsabilidade de liderar.
O dado não explica
sozinho o problema, mas amplia o alerta. Se diminui o interesse em liderar ao
mesmo tempo em que organizações falham em formar sucessores, a fragilidade
deixa de ser pontual e passa a ser
estrutural.
Esse contexto
ajuda a entender um fenômeno cada vez mais visível nas empresas: líderes que,
conscientemente ou não, reduzem o espaço de quem mais poderia crescer.
Não se
trata de hostilidade aberta, e sim de sinais sutis, evitando dar visibilidade a
profissionais fortes, centralizar decisões estratégicas, responder antes de
ouvir, retardar o preparo de sucessores.
À primeira vista
parecem atitudes de rigor ou zelo.
Na prática,
funcionam como mecanismos de autoproteção.
O ambiente
corporativo contemporâneo intensifica esse comportamento. Metas mais
agressivas, estruturas enxutas e ciclos mais curtos aumentaram a percepção de
obsolescência.
Quanto maior a
pressão por performance individual, maior a tentação de proteger território. O
comportamento defensivo deixa de ser exceção e passa a ser resposta adaptativa.
O medo de sombra é
uma ameaça para líderes inseguros e com uma agenda pessoal acima da
organização.
No livro
“Multipliers”, Liz Wiseman aborda esse processo ao diferenciar líderes que
multiplicam inteligência coletiva daqueles que a reduzem.
Os primeiros se
fortalecem cercados de gente competente; os segundos sentem-se ameaçados por
quem poderia brilhar. Muitas vezes não é intenção de limitar— é insegurança
silenciosa.
O efeito, porém, é
concreto: talentos diminuídos e potencial organizacional desperdiçado.
Se a crise de
sucessão nasce de incentivos mal calibrados, a resposta precisa ser estrutural.
Organizações que
desejam formar líderes precisam medir e reconhecer quem desenvolve pessoas.
Líderes que constroem sucessores deveriam ser avaliados e recompensa dos também
por isso.
Quando bônus e
prestígio valorizam quem multiplica talentos, o sistema deixa de premiar
retenção defensiva e passa a estimular liderança geradora de crescimento.
Mecanismos de
mobilidade interna e pools estruturados reduzem bloqueios e alinham o fluxo de
carreira às prioridades estratégicas.
Talvez a questão
mais relevante não seja se existem líderes inseguros. Sempre existiram. A
pergunta real é se estamos criando ambientes que ampliam essa insegurança.
Quando isso
acontece, o limite de crescimento de um time deixa de ser o talento disponível
— passa a ser o nível de segurança de quem lidera.
RAFAEL SOUTO - sócio fundador
e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mercado
VALOR