Bocejo é contagioso até entre gestante e feto
- Contágio neste caso é fisiológico, não cognitivo
- Imitação pode ser inevitável e apenas incidentalmente social
Somos
macacos-de-imitação, todos nós: temos a tendência a repetir as ações que vemos
os outros fazerem. Vittorio Gallese, neurocientista da Universidade de Parma, na Itália, foi um dos membros da equipe que, no
início dos anos 1990, demonstrou como isso acontece, com a descoberta do que
eles chamaram de neurônios-espelho.
Estes são neurônios do córtex cerebral
pré-motor que não só organizam ações motoras –ou seja, um aumento na sua
atividade tende a causar uma determinada ação em seguida– como também são
ativados pela visão da mesma ação, em cujo caso o resultado é a sequência visão
da ação –ativação interna do comando da ação– imitação.
Neurônios-espelho
foram inicialmente alardeados como um tipo específico de neurônios, mas então
outros pesquisadores começaram a testar neurônios em suas partes favoritas do
córtex cerebral, e hoje sabemos que neurônios-espelho não são especiais.
Eles
foram apenas o primeiro caso descoberto de um princípio fundamental de
funcionamento do cérebro: a sua organização em alças fechadas, ou circuitos
recíprocos de feedback, onde os neurônios que começam a preparar uma ação
também já vão ativando os neurônios que representam as consequências sensoriais
daquela ação, que reforçam de volta o preparo daquela ação e assim em diante.
A
bola de neve culmina na execução da ação, e no processo emerge, junto com a
preparação do movimento, a sensação do que estamos prestes a fazer —e a oportunidade
de cancelar tudo.
Isso
significa duas coisas. Primeira: o espelhamento não é uma propriedade
individual dos neurônios-espelho, nem especial deles.
E segunda: o que quer que
ative os neurônios que representam as consequências sensoriais de uma ação,
mesmo observadas nos outros, tem chances de levar à ativação dos neurônios que
causam aquela ação. Resultado: qualquer ação pode em princípio ser provocada
pela percepção das suas consequências... inclusive nos outros.
As
consequências sociais da nossa tendência intrínseca à imitação são claras.
Somos muito mais susceptíveis a imitar as ações de pessoas com quem nos
identificamos –ou será que nos identificamos mais com aquelas pessoas que
tendemos a imitar?
Provavelmente as duas coisas.
Mas um novo estudo de Gallese e sua equipe publicado
recentemente na Current Biology demonstra que o bocejo é contagioso também onde
não há possibilidade alguma de contágio social, ou cognitivo: entre gestante e
feto.
Após ver um ator bocejar, mas não simplesmente abrir e fechar a boca, dois
terços das gestantes estudadas bocejaram também cerca de 90 segundos depois —e,
em outros 90 segundos, 80% dos fetos dessas gestantes, observados por
ultrassonografia, também bocejaram.
A
observação, inclusive com a mesma latência entre o bocejo de um e o do cérebro
seguinte, indica que a bola de neve que culmina em um bocejo leva uns 90
segundos sendo rolada no cérebro, e então gera não só a ação, mas algo mais no
corpo que, talvez pelo sangue, chega ao cérebro do feto e começa tudo de novo.
O
que mais me diverte nisso tudo é a indicação de que o contágio comportamental é
apenas incidentalmente social, pois não importa se a bola de neve começa a
rolar pelos nossos próprios neurônios pré-motores, pelos sentidos, ou por
alguma mudança no sangue.
O contágio é inevitável, simples consequência de como
nossos circuitos cerebrais são organizados.
SUZANA HERCULANO-HOUZEL | bióloga e
neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)