O triste fim do boleiro


O triste fim do boleiro

Com a evolução do atleticismo no futebol, não restou muito espaço para o boleiro de ontem.

"Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer?"

No deboche do craque Romário, a crença tácita é que a preparação atlética seria uma necessidade própria ao menos virtuoso; o genuíno "boleiro", menos dado ao treinamento, bastar-se-ia no talento de berço.

Mas será que o futebol moderno ainda comporta o tal boleiro? 

Ao analisarmos as demandas físicas da modalidade, talvez cheguemos a uma conclusão. Convido-o, então, caro leitor, a uma singela jornada pela ciência do esporte.

Vamos nos valer das avançadas tecnologias de monitoramento de jogadores durante uma partida de futebol —tais como GPS e câmeras de alta velocidade—, que possibilitam uma análise detalhada de vários aspectos do jogo.

Graças a elas, sabemos que um jogador de linha que atua em alto nível percorre, em média, de 10 a 13 km por partida. 

Comparativamente, em jogos de basquete e futebol americano, a distância percorrida gira em torno de 4 e 2 km, respectivamente.

É bem verdade que boa parte do deslocamento no futebol é realizado em caminhada ou "trote" leve. 

Porém, são as ações de altíssima intensidade as mais decisivas no futebol: uma sequência de dribles, uma arrancada em direção ao gol ou uma corrida veloz para roubar a bola do adversário. 

Com efeito, jogadores de elite executam 58% mais lances de potência —ou explosão, como dizem por aí— do que os mais ordinários.

Durante a partida, futebolistas de alto nível chegam a realizar de 150 a 250 destes sprints, que perfazem uma distância total de 2,4 km, a uma impressionante velocidade média de 21 a 24 km/h (no primeiro jogo da CopaVini Jr. superou a marca de 33 km/h em alguns tiros).

E não nos esqueçamos das cerca de 700 mudanças de direção, 36 saltos, 15 cabeceadas e 110 ações variáveis em posse da bola que um jogador é capaz de realizar durante o certame. 

Naturalmente, esses números variam consideravelmente de acordo com a posição ocupada em campo. Meio-campistas apresentam as maiores demandas físicas; goleiros, as menores.

Todo esse esforço representa um profundo desafio à homeostase corporal. 

A frequência cardíaca dos jogadores atinge 98% dos valores máximos; a temperatura corporal varia entre 39 e 40ºC; as catecolaminas —hormônios que estimulam a quebra de gordura para a reposição de energia— vão às alturas; e mesmo assim, o estoque dos principais "combustíveis" para a contração muscular (açúcar e creatina) cai gradual e implacavelmente.

Como consequência do esgotamento energético e do caos metabólico imposto pelo tremendo desgaste físico, quase sempre ao final da partida —mas, ocasionalmente, também em momentos intermediários disputados com maior intensidade— o corpo responde com queda de desempenho. 

É a chamada fadiga, que tem no atleta que se contorce em cãibra sua versão mais emblemática (e dolorida).

Numa modalidade que evoluiu com tamanha demanda de atleticismo, não restou muito espaço para o boleiro de ontem. 

Na ausência de uma adequada preparação —que consiste em treinamento dedicado, boa alimentação, descanso e algum grau de renúncia aos prazeres da vida— é altamente improvável que um jogador desponte em alto nível.

Sempre haverá, contudo, um Romário a me desmentir. Ainda bem...

BRUNO GUALANO - professor da Faculdade de Medicina da USP. Especialista em Fisiologia do Exercício, conduz estudos sobre promoção de estilo de vida saudável para populações clínicas.

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