Construo uma casa ou abro uma escola?
Não posso imaginar alguém se vendo diante de uma disjuntiva tão
amalucada.
Mas ela me permite identificar dois mundos profundamente
distintos: o da técnica, da precisão, e um outro, meio amorfo, elástico e
nebuloso.
Para fazer minha casa, chamo um arquiteto – que estudou como
desenhar prédios. Nos mínimos meandros, digo-lhe como gostaria que fosse. Ele
me entrega uma planta, feita em CAD e especificando cada detalhe da= obra.
Para abrir minha escola, contrato uma consultoria, cujos
responsáveis nunca estudaram esse assunto. Improvisaram ao longo dos anos.
Não
importa se sonhava fazer uma escola, quem sabe, Waldorf, Montessori ou
piagetiana, pois o desafio é satisfazer (ou iludir) as autoridades.
Na prática, meu projeto é quase igual ao que foi vendido tantas
vezes a outros clientes.
Nada a reclamar, pois o que conta é atender aos cacoetes da lei.
E se os anteriores foram aprovados, é melhor que o meu seja
igual.
Para fazer a casa, contrato um engenheiro, formado em tal mister
e que já fez várias. Para a escola, acho um diretor. Alguém me disse que é bom.
Mas ele nunca estudou gestão escolar.
Aliás, não tenho a mínima ideia de como
deveria ser um bom diretor.
A construção exige dezenas de materiais e equipamentos.
Aleluia, quase todos obedecem aos padrões ABNT ou ISO. Nos
vergalhões, sabemos de sua resistência ao estiramento. Na eletricidade, há
normas e especificações
precisas. Há fórmulas matemáticas para calcular a dimensão das
vigas, a bitola do fio e a amperagem dos fusíveis. Todas as técnicas estão
publicadas em manuais.
Para a escola, devo contratar professores. Mas eles não vêm com
especificações técnicas, como a bomba d’água que comprei.
Pena, não há professores padrão ISO. Não há como saber e
conhecem os assuntos que ensinarão.
Na obra, vejo o encanador trabalhando e tiro minhas conclusões.
Mas não tenho como saber se o professor sabe dar aula. Para
testar, poderia entrar na sala de aula e ver como se sai. Contudo, alguns
sindicatos proíbem o dono da escola de assistir às aulas.
Aliás, de todos os
crimes de lesa-pátria, o mais sinistro é propor que os professores sejam
avaliados.
E os livros? Como saber se são corretos?
Há padrões ABNT para o seu papel. Mas nada para o conteúdo. Não
deveria ser o contrário?
Tampouco ensaios controlados, para ver se os alunos conseguem
aprender com eles.
Os “peritos” dão suas opiniões, desencontradas.
Numa obra, posso terceirizar tantas atividades quanto queira.
Contrato firmas experientes e que não fazem outra coisa. Pode
ser a eletricidade, o concreto ou o gás. Na escola, tudo é feito pela própria
equipe, saiba ou não o suficiente. Como preencher os labirínticos questionários
da secretaria (ou Ministério da Educação)?
Como fazer o plano de distribuição de horários, professores e
disciplinas?
Sempre há consultores externos, mas pouco são usados.
Para começar, como saber que eles sabem o que preciso que
saibam?
Se quiser, minha obra pode adotar alguma das consagradas
técnicas de gestão.
No limite, o catecismo da Qualidade
Total está disponível.
Mas nas escolas, tal método é o satanás capitalista!
Na escola, pratica-se uma gestão intuitiva e artesanal. Na
construção, produtividade é o critério número um, capturando alguma relação
entre o que se gasta e que se consegue.
Mas para os arautos mais zangados da esquerda, “produtivismo” é
o mais infame crime.
Fica pronta a obra. Ou então, a minha escola gradua seus
primeiros alunos. Como saber se um ou outro projeto deu certo?
Na obra, há critérios objetivos de qualidade. Incluem
acabamento, funcionamento da hidráulica e da elétrica ou ausência de trincas
nas paredes. A casa pode sair péssima – o que ocorre –, mas os critérios
comprovando isso são precisos e as causas identificáveis.
Na escola, o produto são os alunos. Aprenderam? Há testes, como
a Prova Brasil. Mas são secretas as notas de cada aluno. Como dono da escola,
não posso saber se ele aprendeu o que tentei ensinar.
Três décadas depois, posso chamar um perito para inspecionar a
casa. Problemas estruturais? Vazamentos? Infiltrações?
Sobre o desempenho dos
meus ex-alunos, decorrido esse tempo, tanta coisa aconteceu que não dá para
atribuir à escola nem os bons resultados nem um desempenho catastrófico. Jamais
saberei se fiz tudo certo.
Um exagero aqui, outro acolá, descrevi dois mundos polares.
Um é o mundo dos engenheiros, quantificável e com fórmulas para
lidar com cada passo da obra. O outro é poroso, vago e inconclusivo.
Cambaleando entre palpites e opiniões, é um voo quase cego.
Não é culpa dos educadores que as escolas não sejam projetos de
engenharia. Os processos que lidam com seres humanos têm uma natureza bem mais
arredia.
Porém, as escolas não precisariam estar nesse extremo
nefelibata.
Poderiam adotar técnicas de gestão eficazes ou terceirizar mais
atividades em que não têm escala para desenvolver competências.
A legislação não deveria ser um campo minado. A avaliação
poderia ser melhor usada, pois é um instrumento precioso.
O mundo da escola sempre será diferente do dos engenheiros. Mas
não precisava exagerar.
CLÁUDIO
DE MOURA CASTRO – pesquisador em Educação, PhD em Economia