A vida é uma complexidade auto-organizada... mas teimosa e birrenta


A vida é uma complexidade auto-organizada... mas teimosa e birrenta

E o mundo vira um lugar mais interessante por causa dela.

Tem umas enrascadas em que a gente se enfia que mudam a vida da gente para melhor. Não é nem um pouco porque precisava da enrascada, já que a vida ia perfeitamente bem sem ela. 

O negócio é que a gente herdou um cérebro que adora ter uma sarna pra coçar só porque é capaz de meter as unhas na carne e apreciar, com deleite e sons indecentes de aprovação, a sensação do alívio autoconquistado.

O mundo lá precisava saber quantos neurônios tem no cérebro dos humanos e de outros bichos? 

Estavam todos ótimos, achando que a nossa espécie era especial –mas eu fui me meter a transformar cérebros em sopa só para contar neurônios, o que me levou a comprar brigas variadas com especialistas disso e daquilo que primeiro me avisaram que era óbvio que eu estava errada, mas agora sabiam desde criancinhas que a coisa era como eu suspeitava, donde, por que a surpresa com meus achados de que humanos são apenas mais uma espécie de primata?

Por outro lado, temos, sim, o maior número de neurônios corticais. 

E daí? 

E daí que a primeira suspeita é que isso tem alguma coisa a ver com nossa inteligência. Donde a enrascada seguinte, que ainda não é a de hoje: definir inteligência. 

A história de chegar a esta definição eu já contei aqui —inteligência é flexibilidade comportamental—, que dá um monte de satisfação a este cérebro aqui, mas leva a outra enrascada: o que é comportamento? 

Saí dessa concluindo que comportamento era toda e qualquer ação observável, conclusão que, por sua vez, só me levou a mais outra enrascada, ainda mais cabeluda, esta sim a de hoje. 

Porque se isso é comportamento, então um ventilador giratório tem comportamento —mas nem vivo está. 

Pode isso, Arnaldo, ter comportamento sem ter vida? Porque vai ver que o ventilador está, sim, vivo, e a gente não sabe. 

A resposta depende de definir o que é vida. Só isso. É só esse o tamanho da enrascada.

Vários de nós cientistas já chegamos por meios diferentes a um núcleo comum da definição: vida é complexidade auto-organizada. 

Definição linda e promissora —exceto que incompleta, como me lembra toda ala de minerais dos museus de história natural que adoro visitar aonde quer que eu vá.

Porque minerais também podem ser auto-organizados. Diamantes brutos vêm à cabeça, com seu formato em octaedro quando o diamante é puro, e vários outros poliedros regulares da geometria existem na natureza.

São formas que emergem sem ninguém mandar nem supervisionar, apenas porque os átomos que as compõem agem como unidades que, sob pressão, deslizam uns sobre os outros (estou usando licença poética aqui), se encaixam e se acomodam em posições que são estáveis, já que "sair" delas requer muita energia.

Minerais são preguiçosos dessa forma —tudo o que a vida não é. Porque vida é complexidade auto-organizada também, mas da modalidade enrascada: teimosa e birrenta, que só é estável enquanto houver fluxo de energia e matéria suficiente para "continuar" organizada.

Precisava? Não. Mas ela aparece assim mesmo, e o mundo vira um lugar mais interessante por causa dela.

SUZANA HERCULANO-HOUZEL - bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA).

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