Por que o aumento do diagnóstico
de autismo incomoda tanto?
- Não querer que o filho seja autista não muda em nada a realidade do
transtorno
- Que bom que hoje aprendemos a reconhecer autismo que passava
despercebido
Meu
mais novo "hack" para lidar com meu autismo são óculos de lentes coloridas,
que reduzem a luz ambiente que chega aos meus olhos, de outra forma sempre
excessiva.
Some a isso o chapéu sem o qual não saio de casa e o colar de
girassol que me identifica como portadora de deficiência oculta e me empodera a
embarcar primeiro, e minhas viagens frequentes de avião são agora muito mais
agradáveis, com ataques de ansiedade, com dor de cabeça e enjoo que eu
confundia com enxaqueca, quase reduzidos a zero.
Minha
vida mudou para muito melhor desde meu diagnóstico sete anos atrás, como
acontece com a grande maioria dos adultos que recebem diagnóstico, e também das
crianças que, com um diagnóstico, podem receber compaixão, compreensão e
acomodação que de outra forma lhes seriam negadas.
Ser "difícil" ou
"autista" muda tudo para o futuro de uma criança.
Mas
acho que quando eu chegar em casa, no Brasil, minha mãe vai revirar os olhos e
desaprovar meus novos óculos permanentemente semi-escuros.
Ela acha que eu não
sou autista, por uma razão simples: eu sou igualzinha a ela em muitas coisas, e
ela se acha "perfeitamente normal".
Estou
tentando entender por que tantas pessoas, como minha mãe, ficam tão incomodadas
com o que chamam de "moda" ou "epidemia de autismo", que de
epidemia não tem nada.
Sim, o diagnóstico de autismo aumentou de 1 em 150
pessoas para 1 em 31 nos últimos 20 anos, mas se há alguma epidemia
acontecendo, ela é de conhecimento, conscientização e reconhecimento, o que
leva a mais diagnósticos corretos.
Por
que tanto incômodo, então, com o reconhecimento do autismo alheio? Por que
tanta gente normal se acha no direito de questionar e até rejeitar o
diagnóstico de autismo dos outros?
Talvez a proximidade seja um fator. Como o autismo tem forte
componente genético, o meu autismo (e de mais outras pessoas na minha família
materna) aponta fortemente para a possibilidade de minha mãe ser, no mínimo,
portadora.
Mas, como eu disse, ela recusa veementemente qualquer rótulo que não
"normal".
Medo
parecido é o de ser considerada "mãe-geladeira", de ter culpa do
autismo do filho –e também de ser pai ou mãe de filho considerado
"retardado".
Já ouvi pai de criança evidentemente atípica em família
cheia de autistas esbravejar, com o orgulho ferido, que "minha criança não
é retardada!". De fato, não é. Sua criança é autista.
Deficiência
intelectual é outra estória, que pode ou não ocorrer junto com autismo.
Talvez
exista também uma esperança equivocada de que se o diagnóstico de autismo não
for assim tão comum, então a chance de ter que lidar com uma criança autista
deve ser menor.
Não é. A realidade do autismo não diminui com menos
diagnósticos no mundo. Pelo contrário, a vida de um autista é
desnecessariamente mais difícil sem o diagnóstico, pois o cérebro dificilmente
enxerga o que não espera ver, e não se trata um problema que não se sabe que
existe.
Por
fim, talvez exista uma raiva em se sentir preterido quando a gente, de óculos
escuros, chapéu e colar de girassol, mas andando com as próprias pernas, passa
na frente da fila.
Tento ser generosa e pensar que se as pessoas soubessem como
essa pequena vantagem basta para eu ganhar meu dia, elas ficariam felizes por
mim.
SUZANA
HERCULANO-HOUZEL | bióloga e neurocientista da
Universidade Vanderbilt (EUA)