A neurocientista assiste às Olimpíadas de Inverno
- A vida não precisa de cérebro, mas que coisas maravilhosas fazemos
com ele
- Quem mais se diverte nas Olimpíadas não é um atleta
Nos
meus 20 anos de colunista da Folha já devo ter escrito umas quatro colunas
inspiradas pelos Jogos Olímpicos de Inverno, que eu adoro assistir. Primeiro,
porque costumam coincidir com o Carnaval, quando eu me escondo da barulheira e
do excesso de tudo no Brasil e da friaca nos EUA.
E segundo, porque eu não
perco a oportunidade de assistir a desempenho de elite. Acho sensacional o que
humanos conseguem se ensinar a fazer quando têm tempo e energia disponíveis,
mais muita, muita motivação para chegar lá.
Desta
vez, as Olimpíadas me pegam em plena discussão com meus alunos sobre se animais
precisam ter um cérebro para se mexer. Uma opinião popular fora da minha sala
de aula (e lá vem a polícia de plantão...) é que cérebros evoluíram para
facilitar movimentos complexos.
O neurocientista Daniel Wolpert tem um Ted Talk
muito interessante sobre o assunto. Pena que sofre de um problema comum:
chauvinismo mamífero.
Em
meu curso, acabamos de passar duas semanas analisando o comportamento de 27
grupos de animais cobrindo toda a nossa árvore evolutiva, 24 dos quais não têm
nem sombra de cérebro; têm uns gânglios, e olhe lá.
O extremo absoluto de fato
é imóvel: são as esponjas, que tudo o que fazem é circular água para dentro do
seu tubo e, quando muito, "espirrar" muito lenta e delicadamente,
botando o lixo para fora, usando uns quase-neurônios isolados aqui e ali.
No
outro extremo, temos o animal humano, com 16 bilhões de neurônios no córtex
cerebral, que resolve se equilibrar no gelo ou neve sobre palitinhos de
madeira, pranchas de carbono ou lâminas de aço e desafiar a gravidade dando
saltos quádruplos e cinco mortais e meio retorcidos na cara dela só porque
pode.
O
"só porque pode" é a parte mais importante. Tirando os olhos do
próprio umbigo para apreciar todas as outras formas de vida animal no planeta,
meus alunos estão descobrindo que a vida vai muito bem sem um cérebro,
obrigada.
Águas-vivas têm só alguns poucos milhares de neurônios na superfície
do corpo, mas são tão profícuas em se reproduzir às custas de comer o que lhes
cai nos tentáculos que causam surtos de alforrecas (em português de Portugal,
não é bonitinho?).
Com
também só alguns milhares de neurônios, planárias dão um show de proficiência
no que fazem: comem inteirinhas outras planárias e até lesmas que derem
bobeira, engolindo-as feito jiboias fazem, apesar de só terem um milésimo do
número de neurônios.
E
abelhas, que têm cérebro, mas só uma fração de um milhão de neurônios nele,
movem-se com precisão em três dimensões. Vai realmente dizer que nosso cérebro
enorme evoluiu "para" a gente competir Olimpíadas, Wolpert?
Defendo
que o contrário é muito mais provável: quem tem muitos neurônios, que evoluem
não por necessidade, mas porque há energia disponível, ganha, sim, mais
possibilidades de ação e também mais flexibilidade para fazer coisas
diferentes.
Não precisa, mas já que tem, usa. Aí dá para dividir funções com
outros na sua comunidade e ir se super-especializar em saltos mortais sobre
palitinhos, por exemplo.
E
também dá para ir só observar e aprender, como faz quem me parece estar se
divertindo mais que todo mundo nestas Olimpíadas: o músico Snoop Dog,
contratado da NBC nos EUA para passear pelos bastidores e contar as coisas
interessantes que ele vê. Ah se eles quisessem uma neurocientista...
SUZANA
HERCULANO-HOUZEL - bióloga e neurocientista da
Universidade Vanderbilt (EUA)