Após tantas enganações, finalmente recuperei a
confiança da minha mãe
- Álcool causou o desgaste da nossa relação
- Tudo isso aconteceu há quase dez anos, mas ainda hoje sonho que
minha mãe está brava comigo
Durante um bom tempo, sempre que minha mãe falava
comigo eu notava certo desgosto. O sentimento não era explícito, as palavras
não revelavam o dissabor, mas ele estava no tom de sua voz, na expressão
cansada, na maneira como ela bufava antes de me responder.
Ou no breve silêncio
que precedia sua resposta. A contrariedade era palpável.
Foram tantas enganações, tantos perrengues,
acidentes e situações constrangedoras causadas pelo álcool que, aos poucos, a
nossa relação foi se desgastando.
O olhar dela, muitas vezes carregado de raiva
e decepção, me atravessava. Eu ficava dividida entre a culpa e o vazio deixado
pela perda simbólica de uma figura que sempre foi fundamental para mim.
Às
vezes, eu até ensaiava um "eu te amo", mas ela não dava muita bola,
como se as palavras já tivessem esvaziadas de sentido. Alice, teu nome é trucagem
— era isso que ela me parecia comunicar.
A casa dela sempre foi um paraíso para mim, com um
bar ao lado do sofá. Tendo as garrafas tão disponíveis, era fácil dar um ou
outro trago. Eu nem escolhia a bebida, podia ser qualquer uma, o importante era
beber.
Muitas vezes, eu tinha apenas alguns segundos para virar um gole sem que
ninguém notasse. Se me pegassem em flagrante, era uma gritaria. Minha mãe se
sentia desautorizada, dizia que eu não tinha um pingo de respeito.
E, no fundo,
talvez eu até tivesse algum, mas o meu alcoolismo não tinha nenhum caráter.
Ele
não negociava, não se explicava, não respeitava limites. Sua sanha era beber.
Isso sem falar dos mimos de viagem que eu consumi
tanto na casa dela quanto na casa da minha avó.
Garrafinhas guardadas como
lembrança viravam motivo de tristeza quando eram encontradas vazias. Cada
descoberta era mais uma ferida aberta.
Em meio a tudo isso, eu também me encontrava com
meu pai. (Se é a primeira vez que você me lê, explico: meus pais se separaram
quando eu tinha 17 anos.) Sabendo do que eu aprontava na casa da minha mãe, ele
me pedia para não beber escondido.
Acho que, no fundo, era uma tentativa
desesperada de me fazer parar, de me responsabilizar. Se queria beber, que
pedisse, ele dizia. Na primeira vez que ele deu esse conselho, não tive dúvida:
pedi uma cerveja na mesma hora. Ele, evidentemente, não me deu.
Tudo isso aconteceu há quase dez anos, mas ainda
hoje sonho que minha mãe está brava comigo. É um trauma que segue aqui, quieto mas
presente, como é da natureza dos traumas. O passado vivo no presente,
arranhando a alma. E assombrando o futuro.
Semana passada, fui almoçar na casa dela e, durante
a conversa, ela comentou por acaso que alguém tinha bebido boa parte da pinga
que ela guardava no armário do escritório.
A garrafa, antes quase cheia, estava
pela metade. Por um instante, num relâmpago, pensei que ela estivesse
desconfiando de mim. Mas não. Ela disse, com naturalidade, que sabia que não
tinha sido eu. "Isso não passa mais pela minha cabeça", falou,
tranquila mas firme.
Naquele momento, quase chorei à mesa. Que alívio,
que emoção profunda perceber que, finalmente, eu tinha recuperado algo
precioso: a confiança dela.
ALICE S. – blog Vida de
Alcoólatra