EFEITOS DA INFLAÇÃO


Apartamento menor, Onix em vez de BMW: inflação corrói a renda até de milionário

Veja diferença no poder de compra de R$ 1 milhão nos últimos dez anos.

"O dinheiro muda de valor com o tempo. O poder de compra varia de maneira acentuada a cada cinco anos, em especial neste momento de inflação em alta", diz a professora de finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), Myrian Lund.

O aumento dos preços corrói a renda até de quem é milionário: há dez anos, com R$ 1 milhão, era possível comprar, por exemplo, uma cobertura de 148 m² com três dormitórios na Saúde, bairro da zona sul de São Paulo, e ainda deixar um BMW 118i 2.0 automático na garagem.

Hoje, com o mesmo dinheiro, compra-se um apartamento de 65 m² e dois dormitórios na Vila Mariana, também na zona sul da capital, com vaga para um Chevrolet Onix 1.0 câmbio manual.

O valor do dinheiro no tempo

A variação de R$ 1 milhão nos últimos 10 anos

Ano

Valor

Inflação pelo IPCA*

A quanto equivale hoje

Quanto valeria corrigido pela inflação

2017

R$ 1.000.000,00

32,4

R$ 755.263,55

R$ 1.324.042,00

2012

R$ 1.000.000,00

84,28

R$ 542.648,66

R$ 1.842.813,00

*no acumulado até maio de 2022 Fonte: Lund Finanças

DONO DE R$ 1 MILHÃO NÃO PODE PARAR DE TRABALHAR'

Segundo Myrian Lund, juntar dinheiro não tem sido uma tarefa trivial. "Já foi no passado e muita gente ainda fica com esta lembrança, do que os pais ou avós fizeram para construir ou aumentar o patrimônio", afirma.

Nos anos 1990, por exemplo, ganhava-se 20% acima da inflação real. 

Por isso, todo mundo deixava o dinheiro na poupança", diz. "Naquela época, quem vendesse um imóvel de R$ 1 milhão conseguiria sacar, todo ano, R$ 200 mil, sem mexer no patrimônio". 

Ou seja, era possível viver de renda, ganhando cerca de R$ 16 mil ao mês (equivalente a cerca de R$ 70 mil hoje).

A título de comparação, considerando o ano de 1998, o salário mínimo era de R$ 130 (equivalente a R$ 572 hoje).

"Hoje, quem tem R$ 1 milhão não pode parar de trabalhar", afirma Myrian, mestre em gestão empresarial com especialização em finanças e planejadora financeira certificada pela Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro).

Ela aponta como a melhor aplicação a que paga inflação mais juros, como o IMA-B (formado por títulos públicos indexados à inflação medida pelo IPCA), que nos últimos dez anos apresentou uma rentabilidade de 172%. 

"Hoje se você aplica R$ 1 milhão em um título público, que renda inflação mais 6% ao ano, vai receber R$ 60 mil no ano. Vai viver com R$ 5.000 por mês, bem abaixo do padrão de vida esperado para um milionário", diz.

A especialista destaca que, para quem não está acostumado a lidar com dinheiro e não tem um imóvel, a compra da casa própria ainda é uma garantia. 

"Se tem R$ 1 milhão na mão e não tem imóvel, compre um", diz Myrian. "No futuro, você pode vender e morar em uma cidade do interior, no caso de quem vive nas capitais, onde o custo de vida é muito maior."

QUEM GASTA R$ 6.000 AO MÊS PODE VER PATRIMÔNIO ACABAR ANTES DE MORRER

Na opinião de Renato Breia, sócio da casa de análise de investimentos Nord Research, "carregar" um ativo que não valoriza acima da inflação, como é o caso dos imóveis, não é uma boa opção. 

De acordo com o índice FipeZap, a valorização dos imóveis em junho é de 0,47%, enquanto o IPCA subiu 0,67%.

O economista, que administra a Nord Wealth, braço de gestão patrimonial da Nord Research, afirma que tudo depende dos objetivos do investidor. 

"Se aos 60 anos, ele quisesse investir R$ 1 milhão para preservar o patrimônio e ainda ter uma renda para viver até os 95 anos, poderia ter retiradas de R$ 3.994 ao mês", diz ele. "Mas se esta retirada subisse para R$ 6.000, o patrimônio dele acabaria aos 83 anos."

Myrian Lund acredita que, com a disparada da inflação, os pais precisam abandonar a ideia de acumular patrimônio para deixar algo para os filhos. "Mas eu digo que a maior preocupação deles hoje deve ser não dar trabalho para os filhos, e manter a independência financeira até o fim da vida."

MYRUAN LUND – professora de finanças FGV

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