O que esperar dos filhos adotivos?


Dormimos mais tranquilos quando uma criança é adotada

Minha mãe foi adotada já na maternidade, assim que nasceu. Adoção “à brasileira”, como se diz, através de um médico amigo, que sabia que meus avós não conseguiam ter um filho.

Algum tempo depois, minha avó engravidou, vivendo uma situação que não é rara, na qual o casal, depois da chegada da criança adotiva, se descobre esperando um filho biológico. Para completar a cena, comum em sua época, foi mantido o segredo a fim de “não traumatizar a criança”.

Mas, como se sabe, o que traumatiza a criança não é a adoção em si, mas a impossibilidade de ter reconhecida, por si e pelos outros, sua história. Toda história tem traços de sofrimento, mas também de dignidade, que merecem ser contados.

Vale lembrar o livro “Corpos que Gritam: psicanálise com bebês” (Ática, 1995), no qual Caroline Eliacheff relata seus bem sucedidos atendimentos psicanalíticos com bebês abrigados, cujas histórias são de causar insônia em marmanjo.

Em São Paulo, o Instituto Fazendo História realiza um belíssimo trabalho com essas crianças e seus pais —com os adotantes e com os que entregaram em adoção.


Lar Novo Acolher, que abriga crianças retiradas das famílias pela justiça por causa de maus tratos

 

Relatos de adoções sempre emocionam. Quanto mais risco ou sofrimento a criança tiver passado antes de ser adotada, mais nos dá satisfação saber que ela encontrou um lar para chamar de seu. Seja porque se trata de um bebê —imagem acabada do desamparo—, seja porque são crianças mais velhas, negras ou doentes —com poucas chances de serem escolhidas—, tudo é motivo para que fiquemos com os olhos marejados.

A partir de agora: cama quentinha, comida, escola, roupa limpa, casa protegida, uma família. Dormimos todos mais tranquilos quando uma criança é adotada.

Ao contrário das décadas anteriores, as adoções se tornaram motivo de orgulho e exibição. O desejo de engravidar pode ser considerado banal, mas a intenção de adotar pode causar comoção. Quanto desprendimento e amor para cuidar de alguém gerado por outra pessoa! Diante de pais tão magnânimos, cabe ao filho adotivo a eterna gratidão, é claro!

O que nem todo mundo sabe, é que existe um contingente de crianças “devolvidas” durante a guarda provisória ou abandonadas, depois da guarda permanente —há penalidade prevista no segundo caso.

Sugiro “A Devolução de Crianças Adotadas: um estudo psicanalítico” (2015) de Maria Luiza Ghirardi, “La Adopción” (1996) e “La Adopción y Silencios” (1996) ambos de Eva Giberti.

Muitas vezes, o fracasso das adoções se revela um grande mal-entendido. Os candidatos a pais esperam gratidão das crianças, mas gratidão não é o forte das crianças. O forte dos filhos —qualquer um— é testar o amor dos pais até o limite, na esperança de que eles não respondam com violência e nem com abandono. 

E haja saco para aguentar as investidas e sintomas das crianças até que se sintam confiantes. A criança adotiva, por motivos óbvios, precisará testar os pais ainda mais.

Um pouco de humildade nas expectativas dos candidatos a pais adotivos e menos idealização ajudaria a diminuir a devolução dessas crianças. 

Afinal, adotar ou gestar um filho é um ato que responde, acima de tudo, aos desejos egoístas de cada um de nós.

Passados 92 anos, não sabemos nada sobre as tristes circunstâncias que fizeram meus avós biológicos entregarem minha mãe na maternidade.

Mas sabemos que meus avós adotivos aguentaram toda encheção de saco que uma criança tem o direito de causar; não desistiram da filha depois da chegada do filho biológico; tampouco esperaram mais gratidão do que os pais em geral deveriam esperar.

Vera Iaconelli - diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e "Como Criar Filhos no Século XXI". É doutora em psicologia pela USP.

Fonte: coluna jornal FSP

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