Problema da inteligência artificial será econômico, não ético


Problema da inteligência artificial será econômico, não ético

Carta de Musk mais celebra suposto poder da tecnologia do que pede sua restrição.

Os últimos dias têm sido intensos com relação ao debate sobre as novas ferramentas de IA (inteligência artificial). Carta assinada por Elon Musk e Yuval Harari pediu "pausa" de seis meses no desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial mais poderosas que o GPT-4. 

Além disso, a Itália baniu o uso do ChatGPT com base em alegadas violações à sua lei de proteção de dados pessoais.

Cartas como essa, no entanto, não conseguirão frear a IA. A história recente da tecnologia é tornar "normal" funcionalidades que no início eram consideradas inaceitáveis. 

No início da popularização da internet, postar uma foto sua era considerado estranho e perigoso. 

A prática foi não só normalizada como hoje é quase obrigatória em vários serviços.

Compartilhar a própria localização já foi visto como coisa de maluco. Quem anunciaria para o mundo sua localização física? 

Hoje não só marcamos onde estamos, como nosso celular monitora nossa localização o tempo todo e compartilha essa informação em tempo real muitas vezes com 50 a 100 empresas diferentes. 

Não há ninguém à vista assinando cartas pedindo uma "pausa" nesse tipo de tecnologia.

O fato é que a lista de tecnologias que sofreram restrições reais com relação ao seu uso pode ser contada nos dedos da mão. 

Elas incluem a clonagem de seres humanos, modificações genéticas em humanos que possam se tornar hereditárias e pesquisas relacionadas a ganhos de função em vírus e bactérias, aumentando sua capacidade infecciosa.

Só que mesmo essas tecnologias não foram banidas. 

A clonagem está a todo vapor em animais, inclusive de estimação. Modificações genéticas hereditárias também são comuns em plantas e animais. 

Até com relação ao temido ganho de função há evidências de vários países conduzindo pesquisas desse tipo. Ou seja, as restrições éticas não surtiram efeito. Tudo continua entre nós.

Com relação à IA, a história deve se repetir. Nenhum debate ético atual parece ter a capacidade para frear o avanço dessa tecnologia. 

Mesmo a carta assinada por Harari e Musk parece muito mais uma peça de propaganda do poder dessas tecnologias do que um pedido real de restrição. 

Afinal, o que são seis meses? E a restrição seria apenas com relação a tecnologias mais avançadas que o GPT-4? 

A carta mais celebra o suposto poder da tecnologia do que pede sua restrição para valer.

O foco no debate ético acaba ofuscando o problema real da IA, que na verdade é econômico. Esse problema é bem descrito pelo professor Richard Freeman, nas suas três leis da economia dos robôs.

  • Lei nº 1: a inteligência artificial cria substitutos robóticos ao trabalho humano (maior elasticidade de substituição)
  • Lei nº 2: o custo dessas tecnologias é decrescente (como mostra o ChatGPT) e tende a se tornar menor do que o custo do trabalho humano
  • Lei nº 3: a questão passa ser quem será o dono dos robôs que vão nos substituir. Se você é dono dos robôs, isso vai melhorar sua renda e sua vida. Mas, se você não for dono, prepare-se para o pior.

Diante de leis econômicas simples como essa, há muito pouco que o debate ético pode fazer.

RONALDO LEMOS - advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

Tel: 11 5044-4774/11 5531-2118 | suporte@suporteconsult.com.br