Saboreando
a torta de climão
"Torta
de climão" é uma das expressões criadas pela internet para descrever
situações em que é inevitável se sentir desconfortável, como quando comemos um
doce de limão exagerado no azedume.
Ou
quando vemos um colega ser demitido e gera aquele medo de passar pelo mesmo. Ou
quando recebemos um feedback negativo, que deixa um gosto ruim na boca.
Situações
como essas aumentam a sensação de pressão no trabalho: se só de ler isso você
já sentiu alguma coisa no estômago, bem-vindo ao clube.
Pressão
é uma parte inseparável da vida profissional e aprender a lidar com ela pode
ser mais decisivo para a sua carreira do que qualquer habilidade técnica.
A
boa notícia: dá para treinar. É o que defende Tomas Chamorro-Premuzic,
professor de psicologia dos negócios na Universidade Columbia e no University
College London, em artigo publicado pela Harvard Business Review.
Remédio
ou veneno?
Antes
de partir para as dicas, vale entender o mecanismo dos nossos pensamentos. Uma
quantidade moderada de pressão melhora a performance, segundo o especialista. É
por isso que atletas de alto nível costumam se sair melhor em competições do
que nos treinos, e músicos profissionais rendem mais na frente de uma plateia
do que em casa.
O
problema aparece quando a pressão ultrapassa o seu limite individual e começa a
sequestrar o foco —tirando a atenção da tarefa e jogando para as emoções
negativas—, além de derrubar a confiança e gerar ansiedade. Pesquisas mostram
que até 60% dos estudantes sofrem de ansiedade em provas, e 93% se sentem
ansiosos em entrevistas de emprego.
Conhece-te
a ti mesmo...é um conselho recorrente desta newsletter. Se você é um leitor
novo por aqui, é melhor ir aprendendo: autoconhecimento é a chave para uma
carreira de sucesso —independentemente de qual seja a sua definição pessoal do
que é uma vida profissional bem-sucedida.
O
professor sugere uma forma prática de construir essa habilidade: pergunte a
colegas de confiança como você se comporta sob pressão. Parece nervoso? Muda o
comportamento em situações de alta tensão? Age de forma diferente quando está
calmo?
Quanto
mais pessoas você consultar, melhor será o retrato da sua reputação sob
pressão. Às vezes, elas apontam sinais que você nem tinha percebido.
Botões.
Aprenda seus gatilhos.
Com
mais clareza sobre o próprio perfil, fica mais fácil mapear as situações
específicas que disparam sua ansiedade.
Prazo
apertado? Reunião com o gestor? Falar em público? Esses pontos são muito
pessoais: alguém pode ser completamente tranquilo no trabalho e se estressar
fácil com a família. O inverso também existe.
A
boa notícia é que dá para minimizar o impacto disso com planejamento,
priorização e prática.
"A
prática é geralmente subestimada como forma de mitigar a pressão", escreve
Chamorro-Premuzic. Isso vale para entrevistas de emprego, apresentações e até
reuniões com o chefe. Quanto mais previsível você tornar uma situação
estressante, menos ela vai te afetar.
↳ Se o seu gestor é uma
fonte de ansiedade, tente estabelecer uma rotina de comunicação com ele: um
canal preferido, pautas definidas, encontros informais ocasionais.
Familiaridade reduz tensão.
No
desespero... quando a pressão chega de repente e não tem como escapar, algumas
práticas ajudam: respiração profunda, boa noite de sono antes de eventos
importantes, exercício físico regular e meditação. Tudo isso, segundo o autor,
funciona melhor quando vira hábito.
Outro
recurso poderoso é a honestidade. Se você está nervoso numa entrevista de
emprego, admitir isso pode ser mais eficaz do que tentar esconder. Dizer algo
como "me desculpe, estou um pouco nervoso" tende a gerar mais
simpatia do que uma performance forçada de confiança.
Depois,
foque no que genuinamente te interessa no cargo —isso fala mais alto do que
qualquer tentativa de impressionar.
Bater
de frente. Você não quer eliminar a pressão da sua vida, afirma o professor. É
ela que ativa seus instintos competitivos, te empurra para fora da zona de
conforto e te faz crescer. Se você nunca sente pressão, talvez não esteja
mirando alto o suficiente.
•
"Não há feedback melhor do que o fracasso", escreve
Chamorro-Premuzic. Falhar em algo difícil e significativo é o melhor incentivo
para se reerguer e se tornar uma versão melhor de si mesmo. Pressão, no fundo,
é sinal de que o jogo vale a pena.
LUANA
FRANZÃO
- repórter do Painel S.A., cobre notícias do mundo dos negócios. Também é
responsável pela newsletter Folha Carreiras.