Nem toda sensação de escassez vem realmente da falta de dinheiro
Quando
falamos em escassez, é comum associar o termo à falta de recursos. E, de fato,
ela existe em muitos casos. Inclusive, já tratei desse tema em outro artigo ao
abordar a diferença entre escassez e folga financeira.
Mas
existe uma outra forma de escassez, mais silenciosa e igualmente presente: a
escassez percebida. Ela aparece de formas diferentes no dia a dia.
Escassez
percebida
A
primeira situação ocorre quando a pessoa ganha bem, mas gasta além do que pode.
No papel, há renda. Muitas vezes, uma renda alta.
Mas, na prática, o dinheiro
nunca sobra. As contas chegam, o cartão acumula, e a sensação é de estar sempre
correndo atrás.
Em
alguns casos, esse padrão de gasto pode estar ligado a uma tentativa de
compensar uma escassez vivida no passado. É como se fosse preciso aproveitar,
consumir ao máximo e não se privar de nada, agora que há dinheiro.
O problema é
que, sem perceber, esse comportamento pode recriar a própria sensação de falta
pelas dívidas acumuladas.
Outra
situação bastante comum é a de quem tem recursos, mas vive com medo de que eles
acabem.
Mesmo com uma reserva construída ou um padrão de vida estável, a
sensação é de insegurança constante.
A pessoa evita gastar, adia decisões
importantes e, muitas vezes, não consegue usufruir do que já conquistou.
Em
muitos casos, essa sensação está ligada a experiências passadas, como períodos
de instabilidade, perdas financeiras ou até histórias familiares marcadas por
insegurança com o dinheiro.
Aqui, a escassez também não está no dinheiro em si,
mas na forma como ele é percebido.
Escassez
e os pensamentos
Em
ambos os casos, o comportamento passa a ser guiado por essa sensação de falta.
E isso acontece de forma quase automática.
Um pensamento como “não vai ser
suficiente” ganha força e começa a influenciar decisões. Aos poucos, ele deixa
de ser apenas um pensamento e passa a ser considerado como uma verdade.
Quando
isso acontece, as escolhas tendem a se concentrar no curto prazo.
Pode surgir o
impulso de gastar sem muito critério, como uma forma de aliviar o desconforto,
ou o movimento oposto, de restringir demais, mesmo sem necessidade. Em comum,
existe uma dificuldade de olhar para a situação com clareza.
Pois
é… Essa falta de clareza tem um custo. Não apenas financeiro, mas também
emocional.
A sensação constante de aperto, mesmo quando não corresponde à
realidade, gera ansiedade, cansaço e uma percepção de que nunca se chega a um
ponto de tranquilidade.
Por
isso, é importante criar algum distanciamento entre o que se pensa e o que, de
fato, está acontecendo.
Nem todo pensamento reflete a realidade. Muitas vezes,
ele é apenas uma interpretação, construída ao longo do tempo, baseada em
experiências passadas, inseguranças ou até hábitos automáticos.
Planejamento
financeiro é importante
Trazer
os números para a mesa ajuda nesse processo. Entender quanto entra, quanto sai
e para onde vai o dinheiro permite substituir a sensação pela informação.
E
isso muda a qualidade das decisões.
Nem
sempre a solução está em ganhar mais.
Em muitos casos, ela começa em pequenos
movimentos: ajustar um gasto, organizar melhor o fluxo financeiro ou
simplesmente encarar a própria realidade com mais objetividade.
Clareza
não resolve todos os problemas, mas muda a forma de lidar com eles. E, muitas
vezes, já é suficiente para reduzir a sensação de escassez, mesmo antes de
qualquer mudança na renda.
LETÍCIA
CAMARGO
| graduada em Economia pela PUC-Rio, cursou MBA em Finanças pelo IBMEC, é
certificada CFP®️ pela Planejar