O setor que vende saúde adoece seus trabalhadores
- O corpo é o principal cartão de visita no mundo fitness
- Até 51% dos trabalhadores do setor mostram sinais de sofrimento
psíquico
O
caro leitor que acompanha este espaço sabe o que penso sobre o mundo fitness: uma máquina de produzir
fracassados e deprimidos.
Os adjetivos não são originais; tomo-os de Byung-Chul
Han, que os aplica, em sentido ampliado, ao indivíduo pós-moderno, assujeitado
na eterna busca pelo aperfeiçoamento de si e por si.
É
comum atribuir ao profissional do fitness a culpa pelos flagelos da indústria
em que atua.
Trata-se, porém, de uma leitura míope, que supõe ser ele o
artífice desse universo, quando, na verdade, é mais uma de suas criaturas. Daí
a ação ambivalente que desempenha: a de quem explora e, ao mesmo tempo, é
explorado.
Para
os profissionais do fitness, a aparência está intrinsecamente ligada ao sucesso
—um tipo de "capital físico", que substitui o currículo.
A lógica é
semelhante à do vendedor de carros de luxo, cuja imagem precisa sugerir
uma vida próspera para reforçar o valor simbólico do produto; isso se
radicaliza no mundo fitness, onde o trabalhador é completamente reificado à sua
mercadoria: um corpo impecável, que transmite saúde, disciplina e autoridade.
Para
legitimar-se, espera-se que o profissional encarne, ele próprio, o "estilo de vida fitness", com seu
conhecido ônus financeiro, físico e mental.
Por seu turno, os clientes do fitness reforçam essa
engrenagem ao selecionar profissionais pela estética. Estudos apontam que
treinadores musculosos são percebidos como mais competentes.
Carregam, assim, a
pressão de ter seu próprio corpo como cartão de visita —uma prova visível da
qualidade do serviço que oferecem. Se não parecerem "em forma", podem
ter seu conhecimento e sua credibilidade questionados.
A exigência de
sempre manter um corpo esbelto, tonificado e apto
sujeita esses trabalhadores a um severo regime de autocontrole, que pode
transbordar em adoecimento mental.
É o que revela uma revisão sistemática recente:
entre 20% e 51% dos profissionais do fitness apresentam comportamentos
alimentares desordenados, como restrição calórica extrema, compulsão por
exercício e insatisfação corporal.
Um estudo específico estimou que o
descontentamento com a aparência atinge cerca de um quarto dos personal
trainers. Junto com eles, as principais vítimas são os instrutores de aulas em
grupo. Sabe o professor que "performa" sob luzes e sons histriônicos
naquela popular aula de bike indoor?
Metade pode ter risco de transtornos
alimentares. O estudo também revela que a carga é desproporcional para as
mulheres, que sofrem não só com a elevada pressão estética, como também com o assédio sexual.
Os achados expõem o paradoxo de um setor que se vende como o
legítimo promotor da saúde e do bem-estar, mas que adoece consumidores e
trabalhadores sob os mesmos imperativos de estética e desempenho.
Como
resposta, os autores propõem programas de educação e rastreamento de sintomas
para profissionais do fitness, já que uma relação disfuncional com o corpo e a
alimentação pode levá-los a reproduzir e normalizar esses padrões entre seus
alunos.
A
proposta é insuficiente. No interior da indústria fitness, os profissionais
continuarão submetidos às exigências de um mercado que remunera o capital
físico, empurrando-os para a precarização do trabalho e para a deterioração da
saúde.
Liberais dirão que sempre há uma escolha para o trabalhador descontente.
A escolha: submeta-se ou demita-se.
O
não dito é que, alienados no mundo fitness, clientes e profissionais são peões
que se açoitam mutuamente, enquanto uma diminuta elite empilha lucros sobre
seus corpos arrebentados. É o lado smart da cultura fit.
BRUNO GUALANO - professor do Centro de Medicina do Estilo de
Vida da Faculdade de Medicina da USP. Também é autor de 'Bel, a Experimentadora