O Brasil já envelheceu
O desafio é garantir que anos a mais sejam vividos
com dignidade, autonomia e participação social.
Escrevo estas linhas do alto dos meus 90 anos.
É
uma idade que me concede um privilégio raro: ter atravessado, de corpo
presente, boa parte da História recente do Brasil.
Vi o país rural se tornar
urbano, assisti à inflação corroer o salário de gerações inteiras, participei
da construção da legislação previdenciária e acompanhei, década após década, a
promessa adiada de nos tornarmos uma nação próspera.
Há muitos anos repito uma frase que resume, a meu
ver, o maior desafio brasileiro, conforme alertam economistas:
— O Brasil está envelhecendo antes de enriquecer.
Não se trata de previsão pessimista, mas de fato. O
bônus demográfico, período em que há mais pessoas em idade de trabalhar do que
dependentes, praticamente se encerrou.
Perdemos essa oportunidade sem alcançar o
desenvolvimento que muitos países conquistaram antes de envelhecer.
Quando observamos o Brasil de hoje, percebemos um
país de contrastes profundos. Há cidades que oferecem a seus moradores
condições para que cheguem à velhice com saúde, autonomia e segurança.
Outras ainda enfrentam enormes dificuldades para
garantir o básico. Entre esses extremos, existe um abismo que não se atravessa
com discursos, mas com planejamento, continuidade administrativa e políticas
públicas consistentes.
Essas diferenças revelam algo que deveria nos
inquietar. O lugar onde alguém nasce ainda influencia suas chances de
envelhecer bem.
As desigualdades regionais persistem e continuam
sendo um dos maiores obstáculos ao futuro.
Ao mesmo tempo, há razões para acreditar que esse
cenário pode mudar. Há municípios pequenos, distantes dos grandes centros e com
recursos limitados, que conseguiram construir redes eficientes de atenção à
saúde, ampliar a proteção social e oferecer melhores condições de vida à
população idosa.
Esses exemplos mostram que geografia não é destino.
Planejamento, gestão e compromisso público podem alterar trajetórias.
Outra lição importante é que riqueza, por si só,
não garante qualidade de vida na velhice. O desenvolvimento econômico precisa
caminhar ao lado de instituições sólidas, saúde acessível, educação, vínculos
formais de trabalho e proteção previdenciária. A segurança na velhice é
construída ao longo de toda a vida, por cidadãos e governos.
Entre todos os desafios, a saúde talvez seja o mais
visível. À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de fortalecer
a atenção primária, ampliar o acesso a serviços especializados e preparar o
sistema para o aumento das doenças crônicas. Não basta investir em hospitais; é
preciso acompanhar as pessoas durante toda a vida, prevenindo doenças e
preservando autonomia.
Ainda assim, não sou pessimista. Continuo
acreditando na capacidade que o Brasil tem de aprender com seus desafios. Vejo
duas oportunidades claras: investir mais e melhor na educação de uma juventude
numericamente menor e criar condições para que brasileiros mais velhos,
saudáveis e experientes permaneçam ativos, contribuindo para a sociedade.
Envelhecer não deve ser encarado como problema, mas
como conquista civilizatória. O desafio é garantir que os anos a mais sejam
vividos com dignidade, autonomia e participação social. Isso exige
planejamento, cooperação e decisões que ultrapassem calendários eleitorais.
Costumo lembrar a fábula do beija-flor que
transporta pequenas gotas d’água para combater o incêndio na floresta.
Ele sabe que não apagará o fogo sozinho, mas também
sabe que fazer sua parte é indispensável. Sempre enxerguei o envelhecimento do
Brasil dessa forma.
Cada instituição e cada cidadão pode contribuir
para construir um país mais preparado para viver mais. O Brasil já envelheceu.
Cabe a nós decidir se será capaz de envelhecer com inteligência, justiça e
dignidade.
NILTON MOLINA | presidente do
Instituto de Longevidade MAG
Fonte: jornal O GLOBO