Nossa vida financeira não permanece igual ao longo
do tempo.
Mudam as receitas, os gastos, os objetivos e as
responsabilidades. Ainda assim, nem sempre o jeito como usamos o dinheiro
acompanha essas mudanças.
No início da vida profissional, é comum ganhar
menos e ter menos compromissos financeiros. Conforme a carreira avança e a
renda aumenta, começam a caber coisas que antes não cabiam: uma casa mais
confortável, viagens melhores, restaurantes, serviços que facilitam a rotina,
mais lazer.
E não há nada de errado em melhorar o padrão de
vida quando a renda atual aumenta. Afinal, dinheiro também serve para
proporcionar conforto, experiências e qualidade de vida no presente. O problema
aparece quando todo aumento de renda se transforma em aumento de consumo.
Renda atual e o futuro
Ao longo da vida, começam a surgir outras demandas
por esse mesmo dinheiro. E elas não são iguais para todo mundo.
Para alguns,
pode ser a compra de um imóvel, para outros, uma mudança de carreira, a decisão
de empreender, cuidar dos pais ou simplesmente construir patrimônio para ter
mais segurança e liberdade de escolha.
Para quem tem filhos, a mudança costuma ser ainda
mais evidente. Não são apenas os gastos que aumentam, a responsabilidade
financeira também cresce.
Uma eventual perda de renda deixa de afetar somente
você ou o casal, porque os filhos também dependem daquele dinheiro. Ter uma boa
reserva para emergências passa a ser ainda mais importante.
Mas há necessidades que aparecem independentemente
do caminho que cada um escolha para a própria vida. Uma delas é se preparar
para os imprevistos e outra é financiar uma fase da vida em que provavelmente
não teremos a mesma capacidade de gerar renda.
Quando a renda atual aumenta…
Estamos vivendo mais e isso significa que podemos
viver muitos anos depois que reduzirmos ou encerrarmos nossa atividade
profissional.
Mesmo quem gosta do que faz e pretende trabalhar por muito tempo
não sabe se poderá ou desejará manter aos 70 ou 75 anos o mesmo ritmo que
mantém hoje.
Por isso, uma parte do dinheiro que ganhamos durante os anos de
trabalho precisa financiar também os anos que virão depois.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das
dificuldades de organizar a vida financeira. O presente é concreto e a viagem
que queremos fazer, o restaurante de que gostamos ou a casa em que queremos
morar estão diante de nós. Porém, muitas das necessidades futuras ainda parecem
muito distantes.
Quando a renda aumenta, portanto, é fácil pensar
primeiro no que agora podemos nos permitir. E, pouco a pouco, incorporar esse
aumento ao padrão de vida. Só que a renda que recebemos hoje precisa financiar
nossa vida atual e a futura.
Isso não significa deixar de aproveitar o presente
para guardar o máximo possível para o futuro. O desafio é encontrar espaço para
os dois.
Então, conforme a renda cresce, talvez valha pensar não apenas no que
ela nos permite consumir agora, mas também no que ela nos permite começar a
construir para as próximas fases da vida.
No fim, organizar a vida financeira é também
decidir quanto da nossa renda atual será destinada à vida que queremos ter
amanhã. As escolhas feitas hoje podem ampliar ou limitar nossas possibilidades
no futuro.
Talvez a questão não seja apenas quanto conseguimos
ganhar, mas quanto dessa renda atual estamos transformando em segurança,
liberdade e opções. A sua renda está financiando apenas o presente ou também o
futuro que você deseja construir?
LETÍCIA CAMARGO | planejadora financeira CFP®,
economista, professora e palestrante.
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